Opinião / Sociedade

Agricultura: Serviço Público – Acerca dos Incêndios (2003)

Por Manuel Malvar Fonseca (1942-2015)*,

A recente onda de incêndios, para além dos graves problemas económicos que causou, pôs em risco inúmeras casa e populações inteiras que tiveram que ser evacuadas, um pouco por todo o país.

Para além da tremenda vaga de calor, que, segundo os peritos passará a ser regra nos próximos anos, da mão criminosa, dos descuidos no tratamento das matas, houve um factor que acho necessário realçar e que, em minha opinião, também contribuiu para este drama: o abandono da
agricultura.

Em muitas aldeias desapareceram hortas, quintais e campos de cultivo, que as rodeavam e o matagal, agora, chega até perto das casas o que fez com que os incêndios que começaram nas florestas se estendessem até às casas, habitadas, na grande maioria dos casos, por gente idosa.

Dizem as leis que são os proprietários das casas que têm a obrigação de proceder à limpeza da zona circundante à sua casa num raio de 50 metros. Mas alguém está a ver um casal de idosos com mais de 70 anos a fazer este trabalho sozinho?

Este problema prende-se com a situação da agricultura do nosso país. A agricultura não pode ser pesada na balança do deve e do haver e submetida a rígidas quotas comunitárias. A agricultura joga no nosso país um importante papel sócio-cultural e até de Segurança nacional.

Se há trabalhos feitos pela televisão, pela medicina, pela Escola, até pelo Desporto e Teatro que são considerados e bem, de interesse público e subsidiados pelo Estado, porque motivo não há-de a
agricultura ser devidamente subsidiada?

Digo subsidiada devidamente e não apenas “esmolada”, após o preenchimento de catadupas de questionários abstrusos e acessíveis só a iluminados. Só assim será possível contrariar o avanço da desertificação do interior e contribuir para que tanto jovem desempregado sinta  vontade de se dedicar à agricultura.

Aqui fica a questão se é que não queremos ver o nosso país reduzido a um litoral densamente povoado e um vastíssimo interior transformado num imenso matagal que as chamas no Verão se encarregam de dizimar, ceifando as vidas dos heróicos e idosos resistentes.

*Fundador e ex-director do jornal O Leme, editorial publicado originalmente em 2003 (jornal nº 378, de setembro) e republicado na edição 721, de 09 de agosto

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