Opinião / Política

Opinião: Aquilo que não mudou desde domingo

Ricardo Rosa - Opinião

Ricardo Rosa, jornalista

Por Ricardo Rosa,

Enquanto escrevo esta crónica, ainda decorre a campanha eleitoral, em plena incerteza de quem vai ganhar as eleições – se é que há mesmo um vencedor… Mas você, caro leitor d’O Leme, já saberá o desfecho da noite de 4 de outubro e que (des)governo temos agora pela frente. O que é que já mudou neste entretanto?

Mesmo ciente de que este espaço não vive da atualidade e da diferença de tempo entre a data de fecho de um jornal quinzenal e o dia em que chega às bancas, é difícil passar à margem deste momento.

Não podendo alongar-me do que mudou (mas mudou mesmo?, volto a perguntar-lhe) com estas eleições, sei o que não mudou.

Nós, as pessoas.

Questiono-me, por exemplo, quantas pessoas terão feito fila para serem as felizes contempladas por um qualquer brinde de propaganda política, durante as últimas semanas. Confesso que também não sei que tinham os partidos para oferecer, mas reza o ditado que “para casa nem que sejam pedras”.

A expressão popular acima estava anotada para ser, aliás, o título desta crónica, ainda agosto nem ia a meio (lembra-se das férias de verão? eu já não, mas na altura tive o cuidado de apontar o episódio), a propósito de uma bela manhã de praia em São Torpes, em que de repente tudo acudiu a uma tenda ali instalada a promover a EDP: estavam a oferecer chapéus. De palha, pretos e de aba larga.

Em minutos, quase todo areal estava repleto de pontos negros, assim pareceria a quem ali passasse de avião. A uns metros da minha toalha ouvi uma avó a incitar o neto a lá ir pedinchar um chapéu. Logo a mãe intercedeu e disse que não, que está lá muita gente. Mas a avó insistiu: a criança que não se acanhe e que se meta à frente dos outros! E ela própria, a avó, com um dos famigerados chapéus na cabeça… Agora que recordo o episódio, dou por mim a pensar em que vai (ou foi) esta mulher votar.

De volta às lides eleitorais, interrogo-me também quantos cocós de cão foram pisados nas arruadas por este país fora. Ou as ações de campanha foram estrategicamente planeadas para ruas onde não vão os donos passear os seus animais sem que tratem depois de limpar os respetivos dejetos? (Talvez assim o tenha sido, porque não dei conta de comícios por estes lados. E por aí?)

A propósito, aqui deixo uma proposta para os tais brindes da propaganda: saquinhos para apanhar os cocós. Biodegradáveis, claro. Mas sobretudo espampanantes e vistosos. E serve para qualquer partido, não tem que ser o PAN, lá por ter Animais (todos somos) no nome – e Pessoas também (alguns somos).

Não sei o que vai mudar ou já mudou. Mas sei que o vizinho de baixo continua a passar por nós com tromba até ao chão e sem um bom dia sequer. Sei que a avó continua a levar pedras para casa e a furar a fila na banca do peixe. Sei que o dono do cão continua a deixar o cocó no meio do passeio para quem o queira pisar.

Sei que ser cidadão é mais do que lá ir por uma cruz. É sê-lo todos os dias.

Artigo publicado na edição em papel de 08 de outubro de 2015, n.º 655

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