Igreja / Sociedade

O Natal é de todos e para todos

Sejam portugueses ou estrangeiros, divorciados, vegetarianos convictos ou voluntários, todos celebram a quadra natalícia ainda que de forma diferente. O jornal O Leme foi falar com todos eles e procurou saber como se organiza um jantar vegetariano, como se gere o Natal numa família numerosa ou o que faz um voluntário na noite da consoada.

Nesta edição, o jornal O Leme antecipa a quadra natalícia e conta cinco pequenas histórias de Natal. Experiências de vida  diferentes que são contadas na primeira pessoa e que tornam este Natal ainda mais especial.

Natal 2014

Natal romeno com toque português

Lacramioara Stancu é natural da Roménia e há mais de uma década que vive em Portugal. O seu Natal é uma mistura de tradições romenas e portuguesas, “o meu marido diz que faço uma mixórdia, mas que sai bem.”

O ponto alto das celebrações é a noite de 24 para 25, “quando abrimos as prendas.” Quanto à comida “na mesa há sempre a tradicional Sarmale, que é carne picada enrolada em folha de couve, também faço um tipo de salada russa mas que leva carnes de aves e de vaca. O meu doce preferido é o Cozonac, é parecido com o Bolo-rei mas mais macio.”

Mas a ementa da família Stancu também inclui pratos como o bacalhau assado no formo ou carne de vitela com castanhas, “essas já são receitas portugueses mas que nós gostamos muito.”

Nas aldeias as tradições de Natal são um pouco diferentes. “Na terra dos meus avós, no campo, no dia 24 de Dezembro, as pessoas vão às casas de familiares e de amigos cantar ou andam pelas ruas, e transportam estrelas e pinturas bíblicas. O líder da família costuma levar uma estrela chamada Steaua que é a estrela da sagrada família.”

Outra tradição engraçada, como nos explicou Lacramioara, é a de se vestirem de ursos. “Assim vestidos andam pelas casas e pelas ruas recebendo vinhos, frutas e dinheiro.” Diz-se que aqueles que assistirem terão sorte. As pessoas mais idosas costumam celebrar o Natal no dia 7 de Janeiro, devido às antigas tradições.

A magia de dar num Natal familiar: “O Natal é a festa da família e dos amigos, o tempo de estarmos juntos”

Não há dúvidas quanto ao significado desta quadra para Euridice Costa, mais conhecida por Lala. A dada é vivida com tanta intensidade que começa logo a ser pensada em Janeiro.

“Porque gosto de dar uma lembrança especial aos meus amigos e familiares, então quando vejo uma coisa que me faz lembrar essa pessoa compro e guardo-a até ao Natal.” A forma como Lala e a família vivem o Natal faz com que “celebremos vários natais.” Isto porque o grupo de amigos é tão grande que, “como não conseguimos estar todos juntos num só dia, durante o mês de Dezembro aos fins-de-semana as famílias amigas se encontram para pudermos estar juntos nesta quadra.”

Mas esta família também abre a as portas a outras tradições de Natal. “Como tenho muitos amigos noruegueses, porque vivi nesse país, fazemos a chamada “mesa de Natal”.

Comenos carne de cabrito salgada que é demolhada antes de se fazer e depois cozida vapor e acompanhada com puré de um tubérculo parecido com o nosso nabo, mas de cor alaranjada, e batata cozida.” Este prato é acompanhado por uma aguardente típica chamada Akvavit.

A porta da casa da Lala abre-se de par em par para receber família e amigos. “Já cheguei a ter 35 pessoas a dormir desde o sótão até à cave. Durante muitos anos também recebi duas meninas do Farol e os vizinhos, se estiverem sozinhos são sempre bem-vindos.”

Se quando ficamos adultos o Natal deixa de ter a magia isso não acontece com a Lala. “Este sentimento ficou desde que vim de Angola e não tínhamos nada, mas a minha mãe sempre arranjou uma maneira de dar magia a estes dias.”

Outra tradição são os postais personalizados “chego a enviar 150, as pessoas dizem-me porque não usas o email mas para mim não é a mesma coisa.”

Como mensagem de Natal “gostava que houvesse mais pessoas a preocuparem-se com os outros.”

Um Natal Vegan: “É preconceito achar que são precisos alimentos específicos”

Substituir o lombo de porco por seitan à mesa de Natal é um dos desafios que Sandra Santos, 37 anos, lança aos mais corajosos ou curiosos durante a quadra natalícia. “Lombo de seitan recheado com ameixas, acompanhado de arroz de pinhões e passas, é um prato que se consegue facilmente reproduzir e pode substituir um prato de origem animal na ceia de Natal”, diz a actriz do grupo Teatro do Mar.

Semi-vegetariana há cerca de dez anos, Sandra sempre mostrou interesse pela alimentação vegan. “Quando tinha 16 anos, trabalhei com uma rapariga que me introduziu na cozinha vegetariana e a curiosidade foi-me orientando por esse caminho”, recorda a jovem que deixou de comer carne.

“Mudei porque hoje em dia os animais não são criados em condições e a forma como são tratados e mortos são prejudiciais à saúde. Acredito que esta alimentação é mais saudável”, acrescenta.

Por isso, “só como peixe” e o tradicional bacalhau mantém-se na mesa da família. “Acabo sempre por partilhar e confecciono um ou dois pratos vegetarianos”, explica a proprietária da Cafetaria do Centro de Artes de Sines onde põe em prática vários pratos vegetarianos.

“Consigo reproduzir quase todos os pratos da cozinha convencional”, garante a empresária que também realiza workshops de cozinha vegetariana. “A alimentação vegetariana não é só à base de tofu, soja ou seitan. É preconceito achar que são precisos alimentos específicos. Na região temos ervas aromáticas disponíveis que ajudam na confecção”, conclui.

“Preencher o tempo com os outros, faz-me muito feliz”

Mário Ramalho, 35 anos, vive com a mãe e irmãos, profissional de cozinha, hoje é simplesmente voluntário. “Para mim preencher o tempo com os outros, faz-me muito feliz”, diz Mário Ramalho. Actualmente todo o seu tempo é dedicado aos outros.

É voluntário numa instituição de varidade, cujo trabalho é cuidar de crianças e idosos abandonados, aqueles que não têm ninguém, “… são muitos os que não têm sítio onde viver, nem ninguém que cuide deles…”.

O trabalho de Mário consiste em cuidar de idosos incapacitados, “… sobretudo homens, que vêm da rua, sem casa, sem comida, sem apoio… eu estou no apoio na parte dos homens, dando-lhes banho, etc…porque muitos deles, são obesos e incapacitados, são um peso morto…” explica Mário.

Este ano, tal como o ano passado, o Natal vai ser igual. “… No dia 24, noite de consoada estou aqui até às 23 horas, depois vou um bocadinho a casa, para estar um pouco com a família, depois volto de novo para a Instituição à uma hora da manhã, e, fico por aqui na companhia deles. O dia 25 também é passado aqui, sinto-me muito feliz”. Na Instituição esta quadra passa-se “com amor, como o fazemos durante todo o ano” e acrescenta “…há grupo de pessoas que nos traz bacalhau e outras coisinhas da quadra, mas para nós basta o amor que demos uns aos outros”.

Natal versus Divórcio: O divórcio dos casais não tem de ser a separação dos filhos

Ana, nome fictício, tem 46 anos, e está divorciada há 11 anos. Voltou a casar, mas do primeiro matrimónio nasceram duas meninas. “A mais velha sempre foi muito próxima do pai e por isso sofreu mais porque sentia a sua falta. Para a mais nova foi mais fácil”, conta a progenitora.

À data do divórcio, as meninas, com 10 e 3 anos, aprenderam uma nova realidade que o casal tentou atenuar. “Tentei sempre que as minhas filhas não se sentissem inferiores às outras crianças e fazia-as entender que até ficavam a ganhar porque podiam ter tudo em duplicado.

Pintei a vida delas de cor-de-rosa e hoje são meninas felizes e de bem com a vida”, diz. Com o pai ausente, a trabalhar no estrangeiro, as menores foram sempre compensadas “mas nunca houve alienação parental”, garante Ana que muitas vezes tenta “pôr água na fervura quando não aceitam um não do pai”.

A boa relação entre o casal reflecte-se na quadra natalícia: “Ficou estabelecido, desde o início, que as meninas ficam comigo na consoada e no dia de Natal com o pai. Temos ambos famílias muito grandes e o pai valoriza mais o dia 25 de Dezembro. Do meu lado fazemos imensas actividades, como teatro e cânticos na noite da consoada e, no dia seguinte, vão para o pai, por isso elas são privilegiadas”, adianta.

Até agora, as duas irmãs sempre passaram a quadra natalícia juntas. “Nunca se separaram e até preferem estar sempre juntas nesta altura com as respectivas famílias”, concluiu.

Artigo publicado na edição em papel de 18 de Dezembro de 2014, n.º 637

 

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